Segunda-feira, Outubro 08, 2007

Dia de festa


A segunda-feira na cidade maravilhosa, começou de forma vergonhosa... Desculpe a rima, mas nessa manhã fui acompanhar a desocupação pacífica de um grupo de Sem-tetos que ocupavam desde o dia primeiro de Outubro, o prédio na Rua Senador Dantas, 45 no Centro do Rio, onde funcionava o Cine Vitória, abandonado a mais de dez anos.
Um prédio que teria sido da Beneficência Portuguesa, que por atrasar por muito tempo seus impostos, foi perdido para a prefeitura, e que a mesma alega ter leiloado, mas sem nenhuma publicação no diário oficial, não pode comprovar a informação.
Um fato curioso me aconteceu, enquanto observava a movimentação dos policiais militares, dos guardas municipais e das famílias, que desocupavam o prédio de forma pacificamente humilhante.
Uma senhora nos seus 60 anos portando um óculos GG, se aproximou, e me perguntou:
- O que esta acontecendo aí meu filho? É invasão é?
- Depois de alguns minutos encarando a senhora eu disse: - Não minha senhora, não é invasão não.
- Não convencida continuou - Então é o que?
- Ocupação - disse eu já com cara de não muitos amigos.
Na língua dos sem-tetos, dia de festa é o dia de ocupação, mas nesse caso a festa não acabou bem para os convidados.
Um grupo formado, por mais ou menos 150 pessoas, na sua maioria por mulheres e crianças que bravamente tentavam sair do prédio organizadamente, com o olhar no horizonte, mesmo que algumas ainda deixavam escapar alguma lágrima solitária, na garganta grito de reinvidicação forte e incessante.
Aos que chamam os sem-tetos de vagabundos, baderneiros, de marginais e pessoas de fácil manipulação, deveriam ter a dignidade de ir visitar uma ocupação, conhecer a individualidade das histórias de vidas até chegar ao movimento, e conhecer a esperança desse gente que acreditar consegiur a dignidade através da luta e do trabalho.
Cento e cinquenta famílias hoje voltam a dormir na rua no Rio de Janeiro, cento e cinquenta invisíveis voltam a decorar a noite carioca, tanto cobiçada por gringos e turistas atrás de nossa cidade receptiva e que não dorme.
Mas nossos anfitriões estão dormindo na rua.
Reforma urbana urgente.
Gostaria de ouvir respostas que me inquietassem o coração:
A cidade é pra quem?
Essa luta dos sem-tetos, é minha também?
Vou deixar um pensamento de Bertold Brecht para reflexào

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego

Também não me importei
Agora estão me levando

Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Bertold Brecht